segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Primórdios do liberalismo em Portugal - IV

Consolidado o regime liberal, até 1823, dá-se um aumento do défice da balança de transações correntes. A "austeridade" não foi capaz  (nem o poderia ser) de reforçar a baixa das importações com a subida das exportações. O Vintismo revelou-se irremediavelmente incapaz de corrigir os desequilíbrios da balança comercial, nem tão pouco evitar subidas de preços, como o caso do pão, principal indicador do custo de vida à época.
Se o descontentamento do povo português já vinha de trás, mais se reforçou com esta situação; o descontentamento era generalizado; uma onda massiva de rejeição das ideias liberais fez crescer a oposição ao regime. A burguesia mercantil desesperava, e acumulava créditos sobre créditos para fazer face às constantes desvalorizações que a moeda ia sofrendo. Os agricultores, com métodos estafados e sem equipamentos modernos, não tinham qualquer possibilidade de se desenvolverem, os industriais também com equipamentos antiquados e num país a começar a fragmentar-se, a nada de melhor podiam aspirar. Só para se ter uma ideia: A taxa de esforço fiscal a que os portugueses estavam sujeitos chegava em alguns casos a mais de 80% dos rendimentos! 
 
A partir daqui começa a real decadência de Portugal, se bem que as razões dessa decadência tenham de ser procuradas antes, seguiram-se as guerras entre liberais e absolutistas que acabaram por dilacerar definitivamente a ordem espiritual do "Portugal-Império".  O Vintismo português foi um período de intenso "estatismo político", em que a "austeridade", já naquela época,  não tinha a real proporção das coisas. Só resta dizer que é universal; o roubo declarado e descarado dos povos existe desde sempre, e a nossa actual época só é excepção pelo grau de desfaçatez com que o roubo é praticado. Afinal, a "República" revela-se a mais ladra das instituições. A dívida ia aumentando, o esbanjamento de dinheiros públicos começava a ser frequente; a monarquia, ferida no seu orgulho, assim como a aristocracia, foi completamente manietada na segunda metade do século XIX, estabelecido definitivamente o regime liberal.
 
 
Continua com "A ascensão do liberalismo em Portugal".
 
 
 
 
 

Primórdios do liberalismo em Portugal - III

Segundo Luís A. de Oliveira Ramos no seu livro "Sob o Signo das «Luzes»" a páginas 151 é dito o que se segue: «No Porto, em Lisboa, os mações mais avançados, no que toca a opções políticas, além de se constituírem, no dizer de um relatório, em filósofos da presente época, vergastavam, declaradamente, o trono e o altar e abonavam o governo dos franceses, assim preparando o caminho para a sociedade liberal. (...) Em 1803, os inquisidores de Lisboa increparam os pedreiros-livres por só amarem os padres e reis enquanto virtuosos, doutrina que consideravam injuriosa da suprema autoridade de um e de outro poder, isto é, do poder civil e eclesiástico, e agravada por patentes sinais de indeferentismo religioso.»

Por estas e por outras é que os inquisidores diabolizaram a maçonaria, considerando-a como atentatória da segurança, do estado, da monarquia e das instituições católicas. Sendo assim merecedora de um exemplar castigo a executar pela justiça temporal. Ao contrário do que pretendia Barruel, a maçonaria não foi a principal causa da revolução de 89, mas teve grande contribuição na difusão dos ideais revolucionários, revolução essa que desencadeou um processo de blocos internacionais e de objectividades comerciais, cujo resultado final se cifrou numa amálgama de interesses, muito mal interpretados quando se reduzem à sua expressão mais simples.
 
Até às invasões napoleónicas, Portugal manteve-se fiel à sua estrutura absolutista, quer no campo social e político, quer no campo do poder e da economia. Os intérpretes do absolutismo, oriundos dos mais diversos extractos sociais, perfilhavam, na sua grande maioria, a fidelidade à monarquia pura vigente na metrópole e no império.
Só no período pós-invasões napoleónicas se começa a comentar a necessidade de substituir o regime absoluto por um regime de liberdade, análogo ao de outros países europeus. Os partidários do liberalismo buscavam e anseavam uma «nova ordem política» que restaurasse Portugal, que promovesse a sua regeneração e melhorasse as condições de vida do seu povo. Tal «nova ordem política» revelar-se-ia falsa e aziaga, como a história se encarregaria de demonstrar.
 
A situação de Portugal entre 1807 e 1821 era extremamente confusa. O soberano residia no Rio de Janeiro para onde fugira juntamente com a Corte em 1807, para não ser caçado pelos franceses, tentando governar de lá, sem força e sem eficácia. No continente, a regência encarregue do reino de Portugal mostrava-se totalmente incapaz de resolver os problemas do país, e para agravar a situação, seguia em tempo de penúria dinheiro para o Brasil para sustentar a Corte e para as tropas defenderem esse reino dos vizinhos. Esta situação gerou um amplo descontentamento na metrópole, e os portugueses já viam o país como uma colónia do Brasil. A indústria sem investimentos e com equipamentos antiquados, definhava, os agricultores, em época de abundância, não conseguiam vender os seus produtos a preços consentâneos, e a burguesia comercial que via os seus negócios decrescer a olhos vistos, estava muito descontente com a situação do país. Temia-se que o poder saltasse para a rua.
É assim que em 1918, no Porto, nasce o Sinédrio associação secreta que se propõe mudar o curso da história, criando a revolução liberal de Agosto de 1820 e dando oficialmente  início à era liberal de Portugal.


Continua.