sábado, 11 de agosto de 2012

Renascença e humanismo - da metafísica do ser à metafísica do sujeito

Segundo alguns autores, o termo renascença foi inventado por Giorgio Vasari (1511-1574), pintor e arquitecto italiano, para exprimir o renascimento como «re-criação», do que parecia perdido e não apenas uma imitação dos modelos literários e artísticos da Antiguidade clássica.

Influenciados pelo novo termo e imbuídos de um espírito humanista, os pensadores desse século e dos seguintes, viam o regresso ao antigo mais como um meio e não como um fim, que serviria para modificar radicalmente a natureza humana e permitir ao homem libertar-se das amarras do passado. 

Para compreender na perfeição este processo precisamos de ter a noção que o renascimento foi precedido de uma série de outros renascimentos durante a Idade Média. A razão humanista começou a ser fabricada em plena Idade Média, quando a metafísica do ser foi gradualmente substituída pela metafísica do sujeito que preconiza o homem como centro do universo. Petrarca (1304-1374) foi um dos principais representantes do movimento da pré-renascença. As suas ideias viriam a ser cruzadas com filosofias como o neoplatonismo e o epicurismo. O que degenerou num misto de ideias até então inconcebíveis e impensáveis.

Maquiavel seria o primeiro a formular a distinção entre o ser e o parecer, e num golpe maquiavélico, uma nova etapa é formulada: o poder da magia começa a ceder à magia do poder. É o primeiro anúncio da modernidade.

No entanto, no norte de Itália, o sentido da razão humanista, imbuída de uma mentalidade crítica e reformadora, não renega a fé como o fizeram os estados do sul e centro de Itália. Erasmo de Roterdão (1469-1536), figura estranha com quem o nosso Damião de Goís privou, é um dos exemplos. No seu Elogio da Loucura, os desvarios da irracionalidade reinante não poupam Papas, Imperadores ou magistrados. Mais tarde, viria a unir-se a outros pensadores humanistas cristãos como Lefébvre d´ Etaples (1450-1536), Luís Vives (1492-1540) e Melanchton (1497-1560).

A doutrina renascentista valoriza o homem, o mesmo é transformado num microcosmo à escala perfeita de um macrocosmo. Nicolau de Cusa (1401-1464) antecipou a moderna metafísica da mente, eleva o homem, com o aprofundamento da concepção metafísica moderna, à dignidade do melhor intérprete da natureza. Grande impulsionador do neoplatonismo e do hermetismo, continuará a valorização do homem, chamando à alma humana a «cópula do mundo».

Uma nova razão estética vai emergindo paulatinamente. Pico della Mirandola (1462-1494) escreve o De Hominis Dignitate, o primeiro grande manifesto da liberdade do homem. A par desta nova razão estética surge também uma nova concepção do mundo provocada pelo neoplatonismo, que inflectia uma nova natureza em que se esboçava a metamorfose da razão estética numa nova razão técnica.
A idade moderna estava pronta a avançar.