terça-feira, 24 de julho de 2012

O corão de Karl Marx

Segundo Eric Voegelin, o novo homem promovido pelo marxismo não rejeita as ilusões religiosas, apenas que no plano ôntico, reintegra Deus em si. O homem faz-se Deus por si próprio.
Ainda segundo Voegelin, a gnose moderna ou neognosticismo, promove o aparecimento de um fenómeno desconhecido na antiguidade, a saber, o desligamento consciente do racio, ou seja, a proibição de questionar, o que no marxismo é um verdadeiro "oukase" (decreto presidencial).

Voegelin considerava que a doxa com a sua pretensão de se erigir a ciência era uma "escroqueria intelectual" que permitisse à ideologia marxista sustentar a acção violenta contra seres humanos, manifestando ao mesmo tempo uma grande indignação moral.

Para designar este tipo de literatura gnóstica que incidia sobre uma nova verdade e um novo mundo, Voegelin utiliza a palavra árabe «Coran»: as obras de Karl Marx tornaram-se no corão dos fieís, às quais se vieram juntar a literatura patrística do leninismo-estalinismo.
Não deixa de ser revelador este facto, não só ele se confirmou amplamente ao longo do nascimento do marxismo, como a virulência que lhe está associada aumentou em moldes que não se pensariam possíveis.

A materialidade (o neoliberalismo) gera a desordem espiritual

« A doença é assim de natureza espiritual: sofremos de um desequilíbrio causado pelo desenvolvimento puramente material da tecnologia. O desequilíbrio só pode ser superado pelo correspondente desenvolvimento espiritual no mesmo domínio. Este desequilíbrio está ligado ao desconhecimento das "necessidades da alma".» - Politique, Histoire et Religion chez Eric Voegelin - Thierry Gontier

Temos aqui um dito muito conhecido; todo e qualquer progresso material que não seja acompanhado do respectivo progresso espiritual está condenado ao fracasso à auto-destruição. Se dúvidas restarem é só analisar a nossa civilização temporal. É ver bem o que o neoliberalismo está a fazer. Note-se que o neoliberalismo é mais extenso do que a terminologia da palavra dá a entender.

« Desde o tempo do liceu, nos anos 1920, ele leu o Capital e confessa ter sido marxista durante alguns meses até compreender os erros de Marx logo que começou a ter disciplinas de economia política, deixando o marxismo de constituir um problema para ele. (...) Voegelin retoma em diversas ocasiões na sua obra, o pensador Marx, qualificando-o de "gnóstico especulativo". (...) Com efeito, o que caracteriza a gnose, é uma insatisfação do homem relativamente à sua vivência no mundo considerada como uma prisão, uma alienação, e como tal, é-lhe necessário libertar-se para reencontrar-se no outro mundo, de onde provém.» - Histoire, Religion et Politique chez Eric Voegelin  - Thierry Gontier

Se esta libertação gnóstica de que fala Voegelin se deu através do marxismo (o que aconteceu em parte), podemos dizer que de libertação ela nada teve, apenas aprisionou ainda mais o homem. O nihilismo, o neodarwinismo, o utilitarismo, o relativismo ético e moral, o feminismo, o gayzismo, e todo o edifício neoliberal e por extensão, a decadência que lhe está associada, são o produto do especulador gnóstico por "excelência" - Marx.
Podemos dar-lhe os parabéns, elevar-lhe estátuas, assim como a todos os outros que directa e indirectamente com ele colaboraram noutras especulações gnósticas.

«Em 1952, Voegelin explica o emprego do termo "gnose", pelo qual ele interpreta as correntes e os pensadores da modernidade que estão na origem da crise que ele diagnostica. (...) reagrupa nessa categoria todas as tentativas de imanentização que, ciosas de resolverem a incertitude da fé, abandonaram a transcendência conferindo ao homem e à sua acção no mundo o significado de uma realização escatológica, pretendendo assim cumprir o paraíso na terra. (...) Destruir este mundo injusto e imperfeito e substituí-lo por uma ordem perfeita e justa, colocando o homem a par da divindade, tal foi a ambição de Marx, considera Voegelin.» - Histoire, Religion et Politique - Thierry Gontier

O diagnóstico feito por Voegelin é perfeito.
O mundo é injusto e imperfeito; vamos destruí-lo e construir um novo, e não é que tal plano está ainda em marcha! Ora, como vemos o marxismo continua bem vivo, nem que seja de uma forma dissimulada e nebulosa, mas o mesmo continua a espalhar os seus efeitos destrutivos. Só não vê quem não quer. E como diz o velho ditado: em terra de cegos quem tem um olho é rei.