quinta-feira, 28 de junho de 2012

O patriotismo segundo Pessoa

«A vida de uma sociedade é, fundamentalmente, uma vida de acção. As relações dos indivíduos adentro dela são, fundamentalmente, relações entre as actividades, entre as acções deles. As relações desta sociedade com outras sociedades - sejam essas relações de que espécie forem - são relações de qualquer espécie de actividade, são relações de acção. É, portanto, pela acção que o indivíduo é social. É, portanto, pelas faculdades que conduzem à acção que o indivíduo é directamente social. Ora, como a ciência constata que são os instintos, os hábitos, os sentimentos - tudo quanto em nós constitui o inconsciente ou o subconsciente - , que levam à acção, segue que é pelos seus instintos, pelos seus hábitos, pelos seus sentimentos, e não pela sua inteligência, que o indivíduo é directamente social. (...) A constatação de semelhança profunda e extensível a um grande número de indivíduos assenta, portanto, na constatação, entre esses indivíduos, da semelhança entre eles naquelas sua acções que mais demonstram uma semelhança ou dissemelhança profunda entre os indivíduos, e naquelas suas acções que maior semelhança ou dissemelhança estabelecem entre o maior númeor possível de indivíduos. (...) E as acções que estabelecem uma semelhança ou dissemelhança entre o amior númeor possível de indivíduos são aquelas que, por mais naturais, mais gerais, mais repetidas, são por isso comuns a um grande número de indivíduos, sendo, através delas, constatada fácil - imediata - e constantemente a semelhança ou dissemelhança entre os indivíduos. Segue, portanto, que a acção que mais implica a semelhança ou dissemelhança entre vários indivíduos é aquela que, sendo a mais natural, a mais geral e a mais repetida, seja, ao mesmo tempo, a que represente o que em cada indivíduo haja de mais profundo. (...)

Ora a acção mais natural, geral e constante, que se dá na sociedade, é a acção de falar. A mais simples de todas as acções sociais é a de falar com outra pessoa; sendo, porém, a mais simples é a que imediatamente nos põe em contacto com o que nessa pessoa há de mais profundo e íntimo. Mas falar  não é possível, no sentido de conversar, senão quando os interlocutores se entendam. Falar, portanto, no sentido social, pressupõe falar a mesma língua. Falar a mesma língua pode envolver, evidentemente, aquele elemento de hereditariedade, que marcámos como necessário neste problema: é quando a língua que os interlocutores falem seja a língua herdada e materna de todos eles.
Encontrámos, portanto, a acção social que estabelece entre vários indivíduos a relação imediata de semelhança extensa e profunda: é o falarem a mesma língua materna. E é com isso que queda revelado qual é o instinto social fundamental: é o instinto chamado patriotismo.


In "Fernando Pessoa o antidemocrata pagão" - Ruy Miguel