terça-feira, 12 de junho de 2012

A integralidade fascista e a antítese atomística demo-liberal

«O desfasamento entre o liberalismo e a democracia, entre o liberalismo e o socialismo, é um desfasamento de método, a diferença entre, liberalismo, democracia e socialismo, por um lado, e fascismo, por outro, é uma diferença de concepção. Deste modo, o fascismo não põe em questão os meios; isso explica como pode aplicar caso a caso na acção política o método liberal democrático e socialista, tornando-se alvo da crítica de incoerência por parte dos adversários superficiais. O fascismo faz questão dos fins e, portanto, propõe-se um fim profundamente diferente quando adopta os mesmos meios, age com espírito diferente e com diferentes resultados. Na concepção da essência da sociedade e do estado, dos seus objectivos, das relações entre sociedade e indivíduos, o fascismo rejeita em bloco a doutrina derivada mais ou menos do jusnaturalismo dos séculos XVI, XVII e XVIII que constitui a base da ideologia liberal-democrática-socialista. (...) O homem, animal política segundo a definição aristotélica, vive em sociedade. O homem que não vive em sociedade é inconcebível, é um não homem. (...) As várias sociedades são, pois, fracções da espécie humana com organização unitária, já que não existe uma organização unitária de toda a espécie, não há uma sociedade humana, mas apenas sociedades humanas. A humanidade, portanto, existe como conceito biológico, não como conceito social.
Em contrapartida, as diversas sociedades humanas existem como conceito biológico e como conceito social; socialmente, são fracções da espécie humana, com uma organização unitária para o prosseguimento dos fins próprios da espécie.
Com esta definição se iluminam todos os elementos do fenómeno social e não apenas os respeitantes à conservação e perpetuação da espécie; o homem não é só matéria, é espírito também, e os fins da espécie humana não são apenas os materiais, comuns às outras espécies animais; são ainda e sobretudo os elementos espirituais próprios ao homem que qualquer sociedade humana integra segundo o grau da sua civilização. Deste modo, em maior ou menor medida, a organização de qualquer sociedade decorre desses elementos espirituais: unidade de cultura, de religião, de tradições, de costumes, de linguagem e, em geral, de sentimentos e de vontade, tão essenciais como os elementos materiais: unidade de interesses económicos, condições de vida, território. Esta definição realça uma verdade que as doutrinas sociais e políticas dos últimos quatro séculos, sobre os quais se estabeleceram os sistemas políticos até hoje dominantes, descuraram: que o conceito da sociedade é um conceito social mas também um conceito biológico em que as sociedades são fracções da espécie humana com organização própria, de um grau específico de civilização, com necessidades e finalidades inerentes e até de vida própria. Não obstante, mesmo sendo as sociedades humanas fracções da espécie humana, têm os mesmos fundamentos característicos da espécie humana, sobretudo de não serem uma soma de indivíduos, mas uma sucessão de gerações.
É evidente, portanto, que, da mesma maneira que a espécie humana não é uma soma de indivíduos que vivem no mundo, de igual modo as várias sociedades humanas que a integram não são a soma dos indivíduos que em dado momento lhe pertencem, mas uma série infinita de gerações passadas, presentes e futuras, de que fizeram, fazem e farão parte. E, assim como os fins da espécie humana não são os fins dos indivíduos singulares que vivem em determinado momento, podendo até estar em contradição com eles, igualmente os fins das várias sociedades humanas não são os fins dos indivíduos que em dado momento as compõem.(...)
À velha concepção atomística e mecânica da sociedade e do Estado, fundamento da doutrina liberal, democrática e socialista, o fascismo opõe uma concepção orgânica e histórica.»


In "Para a compreensão do Fascismo" António José de Brito.