sexta-feira, 8 de junho de 2012

Salazar e a política externa portuguesa

«O Estado Novo salazarista, reflexo português de um tempo histórico de crise, teve de confrontar-se, muito cedo, com o brutal e prolongado desenlace dessa crise, entre 1936 e 1945. Solucionado o problema financeiro, estruturada a ditadura, consolidado o seu poder, só em Setembro de 1935 - com a questão ítalo-etíope ameaçando a frágil paz europeia - é que o presidente do conselho passou a expor as grandes linhas sobre os interesses internacionais do país: projecção colonial, aliança com Inglaterra e segurança do lado espanhol, que na realidade constituíam os fundamentos históricos da política externa portuguesa.
No entanto, Salazar mostrou desde o início uma independência em termos operativos que era indubitavelmente nova. A diplomacia de Lisboa tinha reagido sempre à potencial - e bastante endémica - ameaça espanhola e às dificuldades internacionais das suas possesões africanas de uma forma complexada, acudindo à protecção inglesa de maneira tão obsessiva e subalterna que acabaria por converter a velha aliança luso-britânica numa verdadeira relação tutelar, não apenas incómoda para a acentuada sensibilidade nacionalista da opinião pública portuguesa, mas comportando também uma certa dose de risco para o país, na medida em que transferia para Londres a defesa de uns interesses nacionais que nem sempre coincidiam com as prioridades externas de Inglaterra.
Sem nunca abandonar a relação privilegiada com os britânicos, Salazar conseguiu imprimir um carácter muito mais autónomo à política externa de Lisboa. As razões eram, em parte, internas e estavam relacionadas tanto com a solidez do novo regime, como com a disposição firmemente nacionalista da ditadura e do ditador. Mas obedeciam também às novas circunstâncias internacionais. Por um lado, depois da primeira guerra mundial e, sobretudo, após a crise de 29, a Inglaterra tinha perdido a indiscutível capacidade de liderança mundial que mantivera - embora de forma cada vez mais precária - até 1914. A política acobardada de appeasement com a Alemanha e, como já ocorrera em vésperas da primeira guerra mundial, as desleais - se bem que inúteis - iniciativas de Londres para travar as ambições germânicas na europa à custa das colónias portuguesas, constituíam o melhor exemplo da debilidade britânica.
Por outro lado, o avanço imparável dos fascismos na década de 1930, não só consolidava ideológica e moralmente a posição internacional do regime português, como também, inclusivamente, parecia pressagiar uma possível mudança histórica nas estruturas mundiais do poder. Por último, embora Londres, que continuava a dominar o mar de que dependiam Portugal e o seu império, tivesse continuado a ser um quadro de referência fundamental para a acção externa de Lisboa, entre 1936 e 1943 a evolução da grave crise mundial - primeiro em Espanha e logo depois na europa -, com a consequente ameaça sobre a retaguarda portuguesa, impôs à tradicional política atlantista de Lisboa, um desvio para o continente, provocando assim um afrouxamento da relação de dependência com o aliado britânico. Salazar, que numa atitude bem significativa passou a acumular, em 1936-37, conjuntamente com a presidência do Conselho as pastas das finanças, da guerra e dos negócios estrangeiros, assumiu de forma directa a responsabilidade pela condução do país no meio de um dos momentos mais difíceis da sua história, tendo conseguido sobrepor, num diálogo não raramente tenso com os ingleses, os inseparáveis interesses de Portugal e do regime aos velhos hábitos de subordinação da aliança com Inglaterra.»


In "O estado novo de Salazar" - Hipólito de la Torre Gómez