sexta-feira, 27 de julho de 2012

Gnosticismo e religiões políticas em Voegelin

O gnosticismo, ou mais exactamente, o neognosticismo, é considerado, segundo Voegelin, como um sistema de crenças que nega e rejeita a estrutura da realidade, em particular, a da natureza humana, sendo esta substituída por um mundo imaginário idealizado por pensadores gnósticos e controlado por activistas gnosticistas. [qualquer semelhança com a actualidade é pura coincidência?]

Deste primeiro "ismo" surgiram todos os outros "ismos" o que deu origem ao nascimento das religiões políticas do século XIX e XX. Segundo a definição de Voegelin, a religião política é uma nova categoria de pensamento gerada por um grande movimento de massas. As religiões políticas,  e sempre segundo Voegelin, ancoram-se no gnosticismo que recusa a estrutura da realidade. Essa recusa provoca a rejeição de uma ordem superior e divina, derivando para um mundo imaginário onde surgirá "o novo homem e o novo mundo".
A escatologia imanentista da civilização.

Voegelin realça ainda que a deriva gnosticista operou-se através da lenta revolta egofánica do ocidente; o homem deixa as teofanias para se concentrar sobre o ego, um fenómeno cujo ponto culminante foi, segundo Voegelin, a "divinização" do homem nas obras de Hegel, e sobretudo de Comte e Marx.

Para dar alguns exemplos concretos, basta referir por exemplo, o ambientalismo que exige que a população tenha uma posição política diante do planeta, com métodos e atitudes bem totalitárias e também por exemplo, o gayzismo que exige que toda a gente tenha uma opinião favorável ao movimento, querendo ainda ser reconhecido como modelo e virtude a adoptar num futuro próximo. Não é por acaso que se pretende chamar "casamento" a uniões desse género. O conceito de igualdade tão amplamente apelado pelo neognosticismo, é um produto tóxico da "divinização" acima falada.

Mas Voegelin vai ainda mais fundo, num livro intitulado "Politique, Religion et Histoire chez Eric Voegelin" - Thierry Gontier na página 116 é dito (traduzido para português): «O que me parece particularmente notável, aqui, é a forma como Voegelin segue as metabolizações de representações «satânicas», transferidas sob múltiplas «contra-figuras» das unidades nacionais e étnicas. Por exemplo, no nacionalismo alemão, a divinização da nação, criada por Fichte, na sua Staatslehre, ao nível do reino de Deus, tendo como contragolpe os primeiros sucessos de Napoleão (...) Fichte designa napoleão pelo «homem sem nome», comparado à besta do apocalipse.» Nas páginas seguintes do livro é dito ainda que Fichte é interessante no plano analítico do pensamento voegeliano relativamente às doutrinas de Joaquim de Fiore e do seu esquema trinitário da interpretação da história mundana, assim como o facto de Fichte achar que a divinização da nação alemã se devia a Lutero.


Paisagens de Portugal - Antiguidades III

Paisagens de Portugal - Antiguidades II

Paisagens de Portugal - Antiguidades

terça-feira, 24 de julho de 2012

O corão de Karl Marx

Segundo Eric Voegelin, o novo homem promovido pelo marxismo não rejeita as ilusões religiosas, apenas que no plano ôntico, reintegra Deus em si. O homem faz-se Deus por si próprio.
Ainda segundo Voegelin, a gnose moderna ou neognosticismo, promove o aparecimento de um fenómeno desconhecido na antiguidade, a saber, o desligamento consciente do racio, ou seja, a proibição de questionar, o que no marxismo é um verdadeiro "oukase" (decreto presidencial).

Voegelin considerava que a doxa com a sua pretensão de se erigir a ciência era uma "escroqueria intelectual" que permitisse à ideologia marxista sustentar a acção violenta contra seres humanos, manifestando ao mesmo tempo uma grande indignação moral.

Para designar este tipo de literatura gnóstica que incidia sobre uma nova verdade e um novo mundo, Voegelin utiliza a palavra árabe «Coran»: as obras de Karl Marx tornaram-se no corão dos fieís, às quais se vieram juntar a literatura patrística do leninismo-estalinismo.
Não deixa de ser revelador este facto, não só ele se confirmou amplamente ao longo do nascimento do marxismo, como a virulência que lhe está associada aumentou em moldes que não se pensariam possíveis.

A materialidade (o neoliberalismo) gera a desordem espiritual

« A doença é assim de natureza espiritual: sofremos de um desequilíbrio causado pelo desenvolvimento puramente material da tecnologia. O desequilíbrio só pode ser superado pelo correspondente desenvolvimento espiritual no mesmo domínio. Este desequilíbrio está ligado ao desconhecimento das "necessidades da alma".» - Politique, Histoire et Religion chez Eric Voegelin - Thierry Gontier

Temos aqui um dito muito conhecido; todo e qualquer progresso material que não seja acompanhado do respectivo progresso espiritual está condenado ao fracasso à auto-destruição. Se dúvidas restarem é só analisar a nossa civilização temporal. É ver bem o que o neoliberalismo está a fazer. Note-se que o neoliberalismo é mais extenso do que a terminologia da palavra dá a entender.

« Desde o tempo do liceu, nos anos 1920, ele leu o Capital e confessa ter sido marxista durante alguns meses até compreender os erros de Marx logo que começou a ter disciplinas de economia política, deixando o marxismo de constituir um problema para ele. (...) Voegelin retoma em diversas ocasiões na sua obra, o pensador Marx, qualificando-o de "gnóstico especulativo". (...) Com efeito, o que caracteriza a gnose, é uma insatisfação do homem relativamente à sua vivência no mundo considerada como uma prisão, uma alienação, e como tal, é-lhe necessário libertar-se para reencontrar-se no outro mundo, de onde provém.» - Histoire, Religion et Politique chez Eric Voegelin  - Thierry Gontier

Se esta libertação gnóstica de que fala Voegelin se deu através do marxismo (o que aconteceu em parte), podemos dizer que de libertação ela nada teve, apenas aprisionou ainda mais o homem. O nihilismo, o neodarwinismo, o utilitarismo, o relativismo ético e moral, o feminismo, o gayzismo, e todo o edifício neoliberal e por extensão, a decadência que lhe está associada, são o produto do especulador gnóstico por "excelência" - Marx.
Podemos dar-lhe os parabéns, elevar-lhe estátuas, assim como a todos os outros que directa e indirectamente com ele colaboraram noutras especulações gnósticas.

«Em 1952, Voegelin explica o emprego do termo "gnose", pelo qual ele interpreta as correntes e os pensadores da modernidade que estão na origem da crise que ele diagnostica. (...) reagrupa nessa categoria todas as tentativas de imanentização que, ciosas de resolverem a incertitude da fé, abandonaram a transcendência conferindo ao homem e à sua acção no mundo o significado de uma realização escatológica, pretendendo assim cumprir o paraíso na terra. (...) Destruir este mundo injusto e imperfeito e substituí-lo por uma ordem perfeita e justa, colocando o homem a par da divindade, tal foi a ambição de Marx, considera Voegelin.» - Histoire, Religion et Politique - Thierry Gontier

O diagnóstico feito por Voegelin é perfeito.
O mundo é injusto e imperfeito; vamos destruí-lo e construir um novo, e não é que tal plano está ainda em marcha! Ora, como vemos o marxismo continua bem vivo, nem que seja de uma forma dissimulada e nebulosa, mas o mesmo continua a espalhar os seus efeitos destrutivos. Só não vê quem não quer. E como diz o velho ditado: em terra de cegos quem tem um olho é rei.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

O fim do estado segundo a burrologia marxista

O Estado nacional do século XX, desenvolve-se à escala planetária, nas obras de Marx e Engels. O Estado era apresentado como um fenómeno social temporário, destinado a desaparecer como poder público e a sobreviver apenas como organismo social.

A burrologia do "socialismo científico" de Marx e Engels consiste em suprimir o Estado para instaurar no seu lugar a "sociedade sem classes", verdadeira aberração com origem nos primórdios da reforma protestante.

Consideravam os dois tontinhos acima mencionados que, depois da conquista do poder e da definitiva desaparição do Estado, seria necessário uma fase de transição, o que eles chamavam de "ditadura do proletariado" (uma das maiores merdas já imaginadas), que teria a função de permitir ao partido comunista a utilização de meios repressivos estatais para vencer a resistência do capitalismo. Esta é uma das maiores baboseiras do mundo. Como se o capitalismo fosse a fonte do mal da humanidade, haja paciência para tanta burrridade...

Esta teoria de Marx e Engels nasce da síntese entre o evolucionismo "científico" de Charles Darwin e a filosofia dialéctica de Hegel. A oposição entre a divinização do Estado de Hegel e a sua abolição por obra do marxismo é apenas aparente. Tal como Kant e Fichte, Hegel saudara com entusiasmo a revolução francesa e descobrira em Napoleão a alma do mundo. No entanto, e segundo Hegel, a revolução francesa tinha fracassado na sua tentativa de reconciliar a sociedade civil com o Estado. Deveu-se tal facto, sempre segundo Hegel, à subordinação do Estado ao particularismo da sociedade civil.

A revolução quis elevar a vontade individual a princípio de direito e, o que aconteceu foi, inevitavelmente, o terror.

Aceitando a separação hegeliana entre a sociedade civil e o Estado, o burroíde Marx rejeita a tese da superioridade do Estado sobre a sociedade civil, atribuíndo à sociedade civil o papel que, segundo Hegel, cabia ao Estado. A universalidade e a eticidade que Hegel confia ao Estado são atribuídos por Marx à sociedade, após a viragem materialista operada pela sua filosofia da burridade.

A revolução, segundo o atrasado mental Marx, será a resolução do dualismo Estado-sociedade, no sentido de uma absorção do Estado por parte da sociedade e de uma consequente e necessária dissolução do Estado. Considerava este burrinho, Marx, que o Estado despareceria pela simples razão de que o "Estado ético" de Hegel não tinha razão de ser. Perante este manancial de baboseiras, também o indivíduo acaba por ser dissolvido na sociedade e na história.

Hegel não considerava os Estados como sujeitos da história, mas antes como objectos desta, no sentido que é a história que governa os Estados. Marx, tal como Hegel, considerava que a soberania da história estava destinada a fundir o imanente com o transcendente, ou seja, a cidade terrena com a cidade celeste numa perspectiva utópica de uma palingenésia futura.

A fórmula de Engels, outro burroíde, segundo a qual "O governo dos homens será substituído pela administração das coisas", não difere grandemente da fórmula dos socialistas utópicos como Saint Simon,ou até dos anarquistas da segunda metade do século XIX. As divergências entre marxistas e socialistas utópicos não dizem respeito ao fim a atingir mas sim aos métodos a serem utilizados. Segundo Bakunin, a questão é apenas estratégica, os comunistas pretendem organizar as forças operárias para conquistar o poder político do Estado enquanto os socialistas, pelo contrário, organizam-se na previsão da destruição dos Estados. Ambas as visões concordam no essencial, a rejeição do Estado burguês, que o pretendem substituído por uma democracia absoluta.

O século XX não assistirá apenas ao auge da hipertrofia do Estado liberal, nascido das doutrinas de Hobbes, Rousseau e Hegel, mas também, ao itinerário coerente rumo à dissolução da soberania e do Estado propugnado pelas teorias dos burroídes anarquistas e marxistas.


O que a revolução francesa nos trouxe - do socialismo ao anarquismo

A revolução (com minúscula sim, porque não merece maiúscula) francesa é a matriz de "Estado ético" do século XIX, mas também a ideia de não-estado que, nesse século, vê a luz do dia com o socialismo.

As primeiras manifestações da negação da soberania e do Estado podem ser encontradas em diversas heresias: a ala esquerda dos protestantes, as seitas da revolução inglesa e a ala mais radical da revolução francesa. Estes panfletários de carnaval negavam a família e a propriedade, e os seus principais representantes depois da revolução francesa foram o socialismo utópico, o anarquismo e o marxismo.

A passagem do jacobinismo para o socialismo foi feita através de François-Noel Babeuf (1760-1797), discípulo fanático de Rousseau e Robespierre, guilhotinado em 1797 depois da "conjuração dos iguais" e do seu aluno Filipo Buonarroti (1761-1836). Este último organizou em toda a europa uma rede de sociedades secretas, cujo programa comunista radical chegou através da liga dos justos, a Engels e Marx.

Socialistas utópicos famosos (não só pelas falácias da dialéctica hegeliana, mas também pela burrice descarada)  previam o fim do estado já no século XIX.
Mikhail Bakunin definiria o anarquismo como o proudhonismo amplamente desenvolvido e levado às últimas consequências. Pierre Joseph Proudhon foi o primeiro (asno..) a reivindicar para si próprio o qualificativo de anárquico. Saint Simon, um dos pricipais socialistas utópicos, acreditava que a sociedade do futuro seria composta somente por operários, o Estado desapareceria e o poder político seria substituído por uma administração das coisas "apolítica e espontânea". Estes três samelos defendiam, de formas diferentes, o fim do Estado e o aniquilamento da centralização política, assim como o respectivo fim das relações diplomáticas internacionais na medida em que as nações subscrevessem um pacto revolucionário.

Os ideais destas bestas ainda não desapareceram, continuam vivos, camuflados, à espera da melhor altura para voltarem a manifestar-se logo que a situação o permita. E a situação que irá permitir o assalto final das teorias das bestas utopistas, verá a tarefa facilitada pelas democracias podres que pululam por esse mundo fora.

A declaração dos direitos humanos - a falência da sociedade

A declaração dos direitos do homem e do cidadão, que proclama , em política externa, o direito dos povos a disporem de si mesmos abala os fundamentos do direito público.
Esta ideia da liberdade dos povos disporem deles mesmos, é a ideia revolucionária que levará a redesenhar todas as fronteiras.

Os princípios estabelecidos por Sieyés e pela assembleia constituinte tiveram um inevitável reflexo no plano internacional. Desde o momento em que esta lógica foi adoptada, a história da humanidade devia tornar-se a da autodeterminação nacional.

Na concepção tradicional cristã, a guerra, considerada em si mesma, enquanto uso da força não é boa nem má; ela torna-se boa ou má conforme os fins a que se propõe [utilidade - ética].

O princípio iluminista da "paz perpétua" elevado a valor supremo postula que, a guerra é ilícita, salvo quando feita e empreendida contra os inimigos da paz e da fraternidade.

Edmund Burke nas suas "Reflexions On The Revolution in France", dizia: «Aquele bando de assassinos introduzirá no mundo um novo género de guerra, profundamente diferente das precedentes, que podia derrubar as instituições do seu próprio país».

A república universal e os direitos do homem não significam outra coisa que a extensão da guerra civil a toda a humanidade.

sábado, 21 de julho de 2012

A soberania na Revolução francesa e após a mesma

A Revolução francesa sempre teve como fundamento uma única concepção da soberania ao longo de todo o seu processo de desenvolvimento.

O problema de fundo não consitia em definir se a soberania deve residir no povo ou na nação e quais devem ser as formas representativas de tal soberania, mas sim de conhecer a origem última do seu fundamento. A soberania à qual foram conferidos os atributos da divindade, não reside na nação ou no povo françês, mas no conjunto do género humano. A república não será, pois, deste ou daquele povo mas de toda a humanidade. 

A revolução não faz distinção de princípio entre "nação" e "humanidade". A dissociação destes dois conceitos, no decurso do século XIX dará origem às duas correntes do nacionalismo e do socialismo, cujas raízes são as mesmas, isto é, a "pátria filosófica", sempre associada aos direitos do homem.

Edmund Burke disse em 1790: «Os reis tornar-se-ão tiranos por hábito quando os seus súbditos forem rebeldes por princípio.»

No século XVII, os revolucionários ingleses julgaram e condenaram Carlos I, acusando-o de criminoso. Na revolução francesa não se pretendeu punir Luís XVI como criminoso mas sim como soberano. O seu crime era justamente ser rei. O reú não era um homem mas a constituição monárquica enquanto tal, e por detrás desta instituição, um princípio: A concepção tradicional da soberania.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os tratados westfalianos e o direito internacional

Depois da revolução inglesa e da guerra dos trinta anos (1618-1648), os tratados de Westfália constituíram os alicerces da europa moderna. Os tratados de Westfália vêm rectificar o princípio do equilíbrio e a "razão de estado", e, por extensão, a doutrina do soberano como lei suprema, sem qualquer ponto de referência transcendente. A partir de 1648 a respública Cristiana criada na Idade Média, termina definitivamente, embora a sua influência se faça sentir até 1789.

Louis de Bonald, sublinha o alcance revolucionário deste tratado no qual foi colocado, pela primeira vez, e de algum modo, consagradamente, o dogma ateu da soberania religiosa e política do homem.
Princípio de todas as revoluções, germén de todos os males que afligem a sociedade.

A primeira tentativa de fundar um novo conceito de soberania não ficou a dever-se a Maquiavel nem a Bodin mas a Thomas Hobbes.
Antes de Hobbes, as regras do direito natural estavam inscritas no coração dos homens mais do que em livros, sob a classificação de "preceitos divinos", fazendo parte do ensino religioso da época.
Sobre o direito público, todos os antigos jurisconsultos tinham a mesma opinião, os Estados, ou seja,  o poder dos príncipes e de outros superiores vinha de Deus.

O pressuposto da nova doutrina de Hobbes e dos seus discípulos, pelo contrário, é a ideia de que o fundamento da sociedade e do Estado deve procurar-se não numa exigência natural dos homens, mas antes numa condição convencional, isto é, num acordo de vontade dos indivíduos, representado sob um "contrato social". Tal como Maquiavel e Lutero, Hobbes pensa que a natureza humana é radicalmente má, prevendo uma alienação total dos direitos naturais do homem a favor de um poder absoluto.

John Locke (1632-1704) acha o contrário de Hobbes e reserva alguns direitos naturais, como o de resistência e o da rebelião.
Jean Jacques Rousseau (1712-1778), partindo como Locke da ideia do homem bom por natureza, delega, como Hobbes, os seus direitos ao poder absoluto do povo, que passa a substituir o soberano. O seu "Contrat Social", constituiu, nesse sentido, o mais coerente projecto político das luzes. A hipótese contratualista caracterizará o pensamento político dos séculos XVII e XVIII.


O contratualismo dualista, que implica o carácter revogável da delegação da soberania, foi defendido por Althusius, Locke e Montesquieu, e conduziu à concepção liberal da sociedade e do Estado.

Para Hobbes, toda a soberania reside no poder executivo do rei, enquanto que para Rousseau reside no poder legislativo do povo. Não será errado considerar Hobbes o inventor do povo como fonte originária do Estado. Depois de Hobbes, Rousseau é o primeiro a afirmar que o povo permanece e é soberano, e que a lei é unicamente a expressão da "vontade geral".

Estas ideias de Hobbes e de Rousseau não são novas; já tinham sido desenvolvidas por Marsílio de Pádua e por Guilherme de Ockham.

A tese medieval, segundo a qual não é a autoridade política que cria a lei, mas é a lei que faz o rei, é assim completamente rejeitada e abandonada.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Os longos séculos XVI e XVII

Em plena época absolutista, e sob a influência do humanismo e do protestantismo, nasce uma nova concepção de soberania.

No direito público interno dos Estados, a soberania passa a não mais estar sujeita à lei e ao direito natural, para prefigurar um novo direito que veria a luz do dia no século XVIII, e o fim do absolutismo a partir de 1789. Relativamente ao direito no plano internacional, a emancipação da soberania dos Estados em desfavor da Igreja e do reino, serviu para terminar definitivamente com o modelo político da cristandade medieval.

O direito natural é anterior ao século XVI (erradamente afirma-se que é do século XVI), muito anterior, basta ver que a europa medieval constituía-se numa comunidade internacional de Estados, sob a suprema autoridade do Papa e do Império. Representavam uma autoridade superior às soberanias dos Estados surgidos na europa a partir do século XVI.


«A negação da autoridade suprema da Igreja e do Império implicou a perda de um critério objectivo que transcendia as relações de forças entre Estados» - Roberto de Mattei - "A Soberania  Necessária."

Esta situação conduziu a um "sistema igualitário de Estados", que se baseava em relações de forças, nenhum Estado poderia manifestar ambições desmedidas, pois logo se tratava de reequilibrar as forças. Era já a utopia da "República Universal".

«Privada do seu fundamento transcendente, a visão das relações entre Estados torna-se politicamente imanente e coloca os Estados europeus num plano de paridade, onde a força passa a ser a única autoridade.» - Roberto de Mattei - "A Soberania Necessária".


O princípio materialista, vai exigir que nenhum Estado possa crescer ao ponto de dominar os outros Estados. Sempre que de um aumento de poder de um Estado, esse poder seja contrabalançado por um aumento de força equitativo dos outros Estados. Deste princípio materialista decorre a "razão de Estado" que se instalaria a partir dos meados do século XVII. Esta "razão de Estado" afirmava que existia uma série de Estados nacionais, soberanos e independentes, mas negava uma autoridade política ou moral que os transcendesse.

Thomas Hobbes, Grotius e Pufendorf vieram completar o ramalhete; Hobbes tenta um novo conceito de soberania, Grotius tenta refundar o direito internacional emancipando-o mais uma vez, quer da Igreja, quer da política e também do empirismo das relações de força, por último Pufendorf, conseguirá postular, baseado em Grotius, uma nova concepção do direito, já definitivamente afastada da moral cristã.

Ora, se quisermos procurar as origens da decadência do mundo actual, temos de rever os dois séculos aqui transcritos, é lá que se encontram as razões da decadência; melhor dito, os princípios que permitiram esta situação de decadência. 



Absolutismo luterano e individualismo calvinista

Uma vez supressa a presença da igreja na ordem temporal, o vazio passa a ser preenchido pelo Estado na nova perspectiva do absolutismo luterano, e pelo indivíduo, na perspectiva calvinista.
À esquerda de Lutero, o separatismo protestante encontrará a sua expressão na visão política das seitas religiosas dos séculos XVI e XVII, como por exemplo, os anabaptistas. Foram estes últimos o factor de transição entre o protestantismo e o iluminismo do século XVIII.

A autonomia da política e da moral, começada com o humanismo, preparou em numerosos Estados europeus a definitiva separação entre o poder secular e a autoridade da igreja católica.

A máxima evangélica e luterana de: "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", fundada na ruptura entre fé e razão, entre graça e natureza, conduziu à separação das duas ordens - temporal e espiritual - análoga à separação entre a moral e a política de Maquiavel.
A visão radicalmente pessimista da natureza humana comum a Maquiavel e a Lutero, tornou impossível governar em nome da filosofia do evangelho. Desta antropologia negativa e pessimista decorre a necessidade de conceder ao príncipe uma autoridade férrea, destinada a fundar o absolutismo na esfera política.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A separação dos poderes temporal e espiritual

O século XVI vê nascer alguns dos principais actores que permitiram a extinção definitiva da ordem política medieval. Essa extinção não foi repentina, tinha tido o seu início já no século XIV com as teorizações de Marsílio de Pádua, e durante o século XV o processo vai amadurecendo.

Maquiavel e Lutero, ou humanismo e protestantismo, provocam o corte definitivo entre o poder espiritual e o poder temporal. A visão clássica da alta Idade Média desmoronava-se em definitivo, embora alguns aspectos se mantivessem até 1789. Este corte dará origem ao nascimento do absolutismo, que assumiu várias características nos diversos reinos europeus, e mais tarde, deriva para o despotismo iluminado que mais não era do que a hipertrofia do Estado no século XVIII (Roberto de Mattei - A Soberania Necessária).
Este período durou de 1740 a 1789, e desse mesmo período pode dizer-se que funcionou como "laboratório" do Estado contemporâneo, cada vez menos baseado na Aristocracia rural e cada vez mais em órgãos burocráticos.

Toda esta linha de acção é gradual e implacável. Reordena os novos ensinamentos que se vão deparando e, mantendo uma linha de continuidade com as sucessivas formas que se vão criando, que são cada vez mais decisivas para os tipos de Estado nascidos nos séculos XIX e XX.

Segundo Roberto de Mattei, o Estado republicano e burguês do século XIX é, sem embaraço dos seus aspectos liberal-democráticos, mais centralizador do que o Estado monárquico da fase anterior.
A secularização dos sucessivos regimes governativos prepara a "republicanização" da sociedade que foi desencadeada pela Revolução francesa.

Depois de 1789, cria-se a metanoia final (o terceiro estado constituído em assembleia nacional) cujo principal teorizador foi o Padre Emmanuel-Joseph Sieyés (1748-1836). Este mesmo personagem foi o ponto de encontro, segundo Mattei, das teorias de Rousseau e dos iluministas com a política Jacobina que teve a sua realização no período do terror.

Para Sieyés, a soberania de França reside infalivalmente, na nação, que ele identifica com o terceiro estado.

A nação existe antes de tudo, sendo a origem de tudo, a sua vontade é necessariamente e sempre conforme à lei, é na verdade a própria lei. Enquanto soberania, a nação não está submetida a qualquer lei. A "vontade do povo-nação" é absoluta e infalível, e constitui a fonte de toda e qualquer legalidade.

Sieyés realiza, se assim lhe podemos chamar, a primeira desconstrução propriamente dita. Sob sua influência, a nova concepção da soberania afirma-se na jornada definitiva de 17 de Junho de 1789, quando o terceiro estado se constitui em assembleia nacional.


O rei de França nunca tinha sido a fonte absoluta do poder constituinte; na constituição não escrita e nas leis fundamentais do reino, ele encontrou sempre os limites de sus própria soberania.

É muito fácil de ver que, diferentemente, o poder cosntituinte e o exercício da função legislativa da assembleia não encontrariam qualquer limite às suas ambições, pois, tinham a sua origem na "vontade geral da nação". 


A constituição de 24 de Junho de 1793 no artigo 25º, estabeleceu que a soberania reside no povo; sendo una e indivisível, imprescritível e inalienável.
É aqui implicitamente negado o tradicional princípio cristão, segundo o qual "não há autoridade que não provenha de Deus. (Rom. 13,1)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Grandes anos 80 e 90 - música

O pangermanismo e a Prússia

Nos finais do século XIX, o pangermanismo, cozinhado no início do século XIX na Prússia, começa a manifestar-se me pleno. O edifício prussiano deu origem em 1871 a que a Prússia voltasse ao protestantismo e à luta anti-católica, sempre sob influência directa do luteranismo e do hegelianismo levados ao extremo.

Leopold Von Ranke elabora a constituição prussiana da "razão de Estado" como norma de acção política ou lei motriz do Estado.

Os fundadores da doutrina da superioridade da raça germânica foram um françês, o conde Arthur de Gobineau (1816-1882), e um inglês, Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), genro e discípulo do precedente. A intenção desta teoria relacionava-se com o facto de quererem aplicar à sociedade humana e às suas culturas o mesmo princípio darwiniano da "luta pela existência", sobre o qual Marx fundara o socialismo científico.

O pangermanismo, que apareceu no século XIX como falsa alternativa ao projecto cosmopolita da revolução francesa, tem as suas origens no romantismo e no irracionalismo. Por sua vez, o socialismo humanitário e cosmopolita da mesma época têm as suas origens no racionalismo e iluminismo do século XVIII

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O estado ético de Hegel

Hegel propõe a passagem do Estado contratual para um novo Estado "ético". Esta concepção é alimentada pela teoria de Rousseau da "vontade geral". Isto é, a vontade particular dos indivíduos para uma universalidade ética da "vontade geral".

Hegel representa, tal como Rousseau, a febre maquiavelista, sendo ambos fervorosos admiradores de Maquiavel, e como tal  afirmam que a "razão de Estado" não é culpada da imoralidade de que foi acusada. Para fundamentar esta ideia anterior, Hegel diz que se pretendeu afirmar a autonomia da política em relação à moral, tornando-se dessa forma o Estado imoral.
O Estado ético não tem obrigações morais segundo Hegel, porque estas mesmas obrigações morais incidem sobre a vontade particular. "A vontade vale para a moral e não para a vontade universal do Estado."

Esta situação acima produz a "divinização" do Estado moderno. A síntese das dialécticas de Maquiavel e Rousseau produziu essa "divinização". Para Hegel, o Estado é a suprema realidade da história, e assim sendo, considera o mesmo que, o Estado é a realidade da ideia ética, enquanto vontade manifestada, cumprindo o que sabe e na medida em que o sabe.

O "Estado ético", que segundo Roberto de Mattei, não é a afirmação da soberania, mas sim, a hipertrofia da mesma, prepara inevitavelmente a sua própria destruição. Com efeito, o que se pode imaginar acima disto? Pergunta muito pertinente da parte de Roberto de Mattei.

Notícias surpreendentes sobre Espanha

http://somosmuchos.es/2012/07/podria-haber-un-golpe-de-estado-en-espana/

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A gnose e a sua deturpação segundo Eric Voegelin

«É fácil imaginar a indignação de um liberal humanista se lhe dissermos que seu particular de imanentismo é um passo na estrada que leva ao marxismo.» Eric Voegelin - A Nova Ciência da Política - página 95. (edição Brasileira)

Esta afirmação esclarece muita coisa. Ou pelo menos deveria ter esse poder, não fosse o desligamento permanente da maioria em assuntos políticos. Mas há mais:

«... a gnose constituía [na Idade Média] uma cultura religiosa viva; à qual os homens podiam recorrer. (...) O gnosticismo medieval está ligado ao gnosticismo contemporâneo por uma linha de transformação gradual. E, na verdade, a transformação é tão gradual que seria difícil decidir se os fenómenos contemporâneos devem ser classificados como cristãos, já que derivam claramente das heresias crsitãs da Idade Média, ou se os fenómenos medievais devem ser classificados como anticristãos, por serem claramente a origem do anticristianismo moderno.»

Eu inclino-me mais para a segunda hipótese. Analisando a história, ela suporta na perfeição a segunda hipótese.

«A gnose acompanhou o Cristianismo desde as suas origens, dela se encontrando vestígios em S. Paulo e S. João. A heresia gnóstica foi o grande oponente do Cristianismo nos primeiros séculos. (...) Ademais, além da gnose cristã, havia ainda uma gnose judaica, uma gnose pagã e uma gnose muçulmana. Muito provavelmente, a origem comum de todos esses ramos de gnose deva ser buscado no tipo experiencial básico que prevaleceu na área pré-cristã da civilização siríaca. No entanto, somente no apogeu da Idade Média a gnose assumiu a forma de uma especulação sobre o significado da história imanente.»

Isto é: a gnose começou a sua corrupção a partir do apogeu da Idade Média, e a partir daí, e com a reforma protestante e os alvores do iluminismo, este movimento não mais foi detido.

«A gnose não conduz, por necessidade interna, à construção falaciosa da história que caracteriza a modernidade desde Joaquim [de Fiore]».

Voegelin dá a entender que Joaquim de Fiore teria sido um dos principais teóricos que permitiria, passados alguns séculos, a passagem do gnosticismo para o neognosticismo moderno.

«Uma data apropriada para o início formal seria a activação do antigo gnosticismo através  de Escoto Eriúgena no século IX, porque sua obra, bem como a de Dionísio Areopagita, exerceram influência contínua sobre as seitas gnósticas clandestinas, antes que elas viessem à superfície nos séculos XII e XIII.»

Voegelin revela uma questão importante - o início formal - havia um gnosticismo antigo, em que partes suas foram reactivadas por Escoto Eriúgena e Dionísio Aeropagita no século IX. Apenas a partir do século XII, e provavelmente ainda mais no século XIII, o gnosticismo começaria a tomar as feições de que hoje se reveste.

«A especulação gnóstica venceu a incerteza da fé recuando da transcendência e dotando o homem e seu raio de acção intramundano com o significado da realização escatológica. Na medida em que essa imanentização avançou experimentalmente, a actividade civilizacional transformou-se num trabalho místico de auto-salvação.»

Aqui Voegelin parece sugerir que ao desligar-se da fonte transcendente, o homem liga-se a uma fonte imanente que o faz "vencer" a incerteza da fé; até que ponto isso foi bom ou mau!?

Excertos do livro de Eric Voegelin - A Nova Ciência da Política

Vixen - I Want You To Rock Me (MTV Spring Break) - Daytona Beach, FL 18/...

Vixen - One Night Alone

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Igreja e o Império segundo S. Agostinho

No pensamento de Agostinho, e independentemente do regime, o poder civil e o poder eclesiástico, cada um por seu lado, são bem distintos. Os dois poderes gozam de uma independência soberana. Cada um, e pela parte que lhes toca, depende apenas de si próprio e de Deus. Qualquer ingerência nos seus assuntos é, por um lado culpável, e por outro, perigosa, quer para o bem geral, quer para os poderes que desconhece os limites da sua esfera de competência.

Assim, as duas esferas parecem completamente separadas, Estado e Igreja movem-se em planos diferentes. O plano da igreja é superior, mas ficaria mal traduzido o pensamento agostiniano se ele fosse revestido de quaisquer reivindicações agressivas. Nessa época, encontrámos uma tendência muito forte para afirmar a superioridade da Igreja sobre o Império, ou melhor dito, do Bispo sobre o Imperador.

Agostinho entende que o Estado não deve à Igreja serviços de dinheiro, apenas protecção contra os inimigos. Invoca igualmente a protecção do Estado contra os pagãos, contra os Judeus, em especial os donatistas (seita herética surgida em África). Mediante estas considerações, S. Agostinho, estabelece um princípio cuja importância domina toda a história da Idade Média e, em parte, dos tempos modernos: o direito de intervenção do Estado nos conflitos de consciência.

Por amor à paz, aceita do Estado os erros da política e a insuficiência da administração. Com vista a um bem maior, a Igreja tolera que lhe sejam impostas as leis muito imperfeitas deste mundo. É uma consequência da sua condição. Na terra, a Igreja é cativa; passa o tempo no exílio. Nesta situação lamentosa, nesta caminhada difícil, conforma-se a todas as imperfeições que o Estado arrasta atrás de si.

Agostinho prefere insisitir naquilo que a Igreja dá ao Estado e que é essencial para a sua subsistência: a virtude dos cidadãos. A igreja deve ser dentro do Estado uma escola de civismo e fraternidade. Sendo toda a vida constituída pela providência divina, o reino humano sofre necessariamente um processo transformativo. Há um movimento constitucional: um certo dinamismo arrasta os Estados, e as formas políticas sucedem-se umas às outras segundo leis naturais. Estas provêm de Deus, dispensador da felicidade, que dá em pessoa os reinos da terra, aos bons e aos maus.

Segundo S. Agostinho, a evolução dos regimes não se deve ao acaso nem a uma fortuna cega. Opõe a Providência cristã à deusa Fortuna, que usava uma faiza sobre os olhos. A marcha dos reinos e dos Impérios processa-se segundo um plano que Deus conhece, mas que em geral, os homens desconhecem. Deus autor e regulador de tudo, não pode deixar os reinos fora da ordem universal. Os regimes adaptam-se às necessidades, às tendências e até aos caprichos de cada época, recebendo directamente de Deus, pelas vias já indicadas, a delegação misteriosa de mandar.

No entanto, a providência que preside ao seu nascimento, assiste aos avanços e recuos, segue a sua evolução; faz o balanço; verifica o que cumpriram de bem e de mal; compara-os e regula a sua sorte de acordo com uma justiça rigorosa.

O Bispo de Hipona formula, quanto à imensidão do Império, uma crítica que merece ser assinalada. À excepção talvez do aventureiro Xenofonte, todos os autores antigos eram a favor de um Estado limitado. Quer a Cidade aristotélica como a República platónica são pequenas, quase não merecendo o nome de Estado. Agostinho pensa que a extensão do Império Romano foi um factor da sua decadência, porque trouxe consigo a corrupção dos costumes e da administração.





quarta-feira, 11 de julho de 2012

As formas do poder segundo S. Agostinho

Agostinho considerava que tendo a justiça na base e a caridade no topo, a Cidade proporciona a felicidade aos cidadãos. O seu programa assenta na trilogia, ordem, união e paz. 

Estes deveres são absolutamente necessários a todos os chefes de Estado, seja qual a forma de governo. Pelo que lhe diz respeito, Agostinho não vê vantagem decisiva, nem inconveniente que leve a recorrer a um governo em detrimento de outro, ou a afastá-lo. Pouco importa, pensa ele, desde que o depositário do poder não arraste os governados para actos de imoralidade, injustiça ou impiedade. Todo o governo será, se não bom, pelo menos aceitável, na óptica do bispo de Hipona. Sempre na condição de, em matéria moral e religiosa, respeitar Deus e respeitar o homem.

Agostinho serve-se de muitos exemplos da antiguidade clássica para fundamentar os seus raciocínios.
À pergunta: como foi escolhido o rei? respondia Agostinho dizendo que não foi o mais rico, nem o mais antigo ou o mais valoroso, mas sim , o melhor e foi a natureza a impor essa escolha.

O rei injusto é tirano; a aristocracia injusta é uma facção, o povo injusto merece, como o rei injusto, ser classificado de tirano, dizia S. Agostinho nos seus sermões. Segundo o mesmo, a perda da justiça e o seu desconhecimento, acarretava consequências muito severas. O Estado que desconhece o Direito não é apenas um estado corrompido, é um Estado aniquilado.

Só com a reserva da manutenção da justiça e do respeito pela religião, todos os regimes políticos se equivalem, todos têm os mesmos direitos e a mesma autoridade e podem reclamar a mesma submissão.
Não podia ser mais eloquente, S. Agostinho, em relação ao que deve ser um governo e, transpondo para a nossa época, estamos nos antípodas.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A politologia agostiniana

Na sua obra, Cidade de Deus, Agostinho retrata prodigiosamente a real situação do mundo. Apresenta a evolução das criaturas inteligentes, tanto angelicais como humanas, e assim sendo, existem necessariamente duas cidades na sua obra, a do bem e a do mal. Estas duas cidades estão em constante oposição, e para superar essa oposição o homem deve viver combatendo para que a paz perpétua seja possível numa palingenésia futura.

S. Agostinho distinguia perfeitamente as duas cidades; não se pode confundir a Cidade humana com o Estado nem a Cidade de Deus com a Igreja. Esta última, subentendida no seu aspecto filosófico e imanente, é a comunidade cristã que engloba no seu seio uma organização temporal do Estado, de acordo com as leis do evangelho.

Para S. Agostinho, o homem não possui em si qualquer factor autoritário sobre os outros homens, o Império que lhe é atribuído pelo Génesis não demarca a fronteira humana, não revela ou faz referência ao seu semelhante e igual, livre como qualquer outro, criado por Deus à sua imagem e dotado de alma. Assim sendo, o homem pode segundo as leis da natureza viver só e independente.

Apesar de tudo, uma segunda lei e segundo Agostinho, impedia que tal acontecesse; a natureza leva o homem a associar-se de acordo com um fenómeno de ordem geral que ultrapassa a espécie humana e que se estende ao reino animal. Ainda segundo, Agostinho, os cidadãos são os elementos e os germes da Cidade. Inicialmente, combinam-se para formar a família, que é o núcleo da Cidade.

O caso do Império Romano é amplamente citado em Agostinho: «Ignorado o verdadeiro Deus, ignorada é a justiça». Santo Agostinho põe em causa os sete séculos de república romana, mas logo depois reconsidera, afirmando: «O povo, é a associação de uma multidão razoável que se une para gozar em comum e a um só coração das coisas que ama.» Esta concepção afectiva e comunitária do povo pode fazer supor que Agostinho não tratou da noção de autoridade. No entanto, tal não corresponde à realidade. Foi uma das noções que Agostinho estudou e tratou com cuidado, vendo no poder a pedra angular da sociedade. A restauração desse poder afigurava-se-lhe essencial para pôr término à crise do Estado, tão ameaçado na altura em que escreve S. Agostinho.

À autoridade renovada pelo cristianismo, exorta à salvação da Cidade antiga.

S. Agostinho criou o esboço de uma teoria que viria a ter considerável influência nos séculos seguintes. A chamada teoria do direito divino providencial, que resumidamente diz: «Deus criou o homem de tal maneira que a sociedade civil e, por conseguinte, o poder, lhe são indispensáveis.»
O homem necessita de uma sociedade dotada de uma autoridade. Essa mesma autoridade é indispensável e transcendente, mas a indicação do seu titular e a instauração da sua forma concreta são imanentes e são dependentes de factos humanos.

A missão do poder consiste em fazer reinar a justiça - dizia S. Agostinho - foi com este fim que o poder foi dado ao rei [titular da autoridade]. A justiça em si, é anterior ao poder, impõe-se a todos os países, a todas as instituições e a todas as consciências. Agostinho refuta ainda alguns erros que confundem a  justiça e a força como sendo uma só e mesma coisa, ou que subordinam a justiça à força, ou que dizem que a força e a justiça são essencialmente contrários.

Embora Agsotinho trate de colocar a força no seu devido lugar, o mesmo dá-se conta do papel que ela desempenha. A autoridade não é um mal, mas relativamente à justiça não é primeira, é segunda, diz o mesmo Agostinho. O poder perde a sua força se se afastar da justiça, e segundo os pontos de vista platónicos, o poder, se ameaçado na sua estabilidade e no seu equilíbrio, também o será na sua rectidão e na sua constância. S. Agostinho entendia que a ausência de justiça desencaminhava o poder e a autoridade; e um poder desencaminhado é um poder perdido e uma autoridade desautorizada.  

A cidade de Deus: Santo Agostinho

Agostinho ocupou-se das relações entre a Igreja e o Império. Encontrava-se em Milão na altura em que o bispo Ambrósio entrou em luta com a imperatriz Justina, sustentáculo dos Arianos. Receando que a mãe do rei-menino, Valentiniano, mandasse os soldados raptar Ambrósio, o povo cristão mantinha-se junto do seu bispo e passava as noites na igreja, pronto a morrer com ele.

Semelhante tensão desaparece na altura em que Agostinho, quase no fim da vida, começa A Cidade de Deus. A Igreja está em paz com o estado. Teodósio selou a aliança entre o Império e a Igreja, que seu filho, Honório, estreitou ainda mais. Além disso, o poder civil está ameaçado; precisa de ser reforçado contra a dissolução interna e, sobretudo, contra as ameaças do exterior, depois de Roma ter sido tomada por Alarico, à frente dos Godos, em 410.

Os pagãos atribuem ao cristianismo a responsabilidade do desastre. Das suas fileiras erguem-se queixas, seguidas de acusações à religião nova, por ter enfraquecido e arruinado o Estado.

A refutação preenche os cinco primeiros volumes da A Cidade de Deus. Os cinco seguintes afastam outra tese pagã, segundo a qual a manutenção do culto dos ídolos teria podido, se não salvar Roma da decadência, pelo menos garantir a felicidade futura àqueles que se lhe mantivessem fíéis. Os dez primeiros livros são essencialmente apologéticos, esforçando-se Agostinho por convencer os pagãos de que o cristianismo nada tinha a ver com os males que afligiam o Império e a capital.
Os restantes livros da sua obra são uma exposição das doutrinas cristãs. Do livro XI ao livro XIV, Agostinho descreve o nascimento das duas cidades: a cidade de Deus e a cidade do mundo. Do livro XV ao livro XVIII é relatado e explicado o seu desenvolvimento paralelo. E por fim, entre os livros XIX e XXII enuncia-se os seus fins necessários.

A Cidade de Deus não é um tratado de política, embora dela se ocupe em larga medida. E não foi só na sua grande obra que Santo Agostinho se interessou por problemas desta ordem. Na multiplicidade dos seus estudos, a relação Império/Igreja nunca é esquecida (História das Ideias Políticas, volume I- Marcel Prélot e Georges Lescuyer)

De referir que Santo Agostinho era inicialmente pagão, e só se converteu aquando da leitura de um texto de S. Paulo, que segundo o próprio, «uma voz misteriosa ordenava-lhe que tomasse e lesse». Faz de seguida um retiro em Cassiciacum. Em 387, após o seu regresso do retiro recebe o baptismo das mãos de Ambrósio. Em 388, a sua mãe, bastante decisiva para a sua conversão, falece. Três anos depois, Agostinho que vivia bastante retirado, é reconhecido na basílica de Hipona pelo povo que o reclama para sacerdote. É ordenado no ano seguinte pelo bispo Valério.

Rumo à dissolução - os estontores finais da revolução socialista

SAIBA DO QUE ELES NAO QUEREM QUE VOCE SAIBA: A agenda globalista imposta novamente: Novo Código...: Amigos, novamente estão tentando impor goela à baixo e de maneira silenciosa, a agenda globalista através deste novo código penal... Caros ...

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A soberania medieval - cada homem tem um seu superior

A unificação política realizada por Carlos Magno fractura-se depois da sua morte. A Europa, mesmo assim, torna-se um espaço geográfico com uma fisionomia espiritual e cultural própria, reforçada com o tratado de Verdun em 843.

A partir daqui, com o pacto de recíproca fidelidade podemos ver claramente as origens da estrutura feudal europeia. A nova organização social assentava num princípio segundo o qual a terra só se entregava como benefício a um subordinado, contra certas obrigações pessoais. No século X, a terra confiada (beneficium) começa a ser chamada feudo (feudum). O feudalismo foi um conjunto de vínculos pessoais e hierárquicos; em cada degrau desta hierarquia, cada um era, ao mesmo tempo, vassalo e suserano. O pacto feudal fixava os direitos e obrigações do suserano e do vassalo, o estatuto pessoal do vassalo e o estatuto da terra.

Na Idade Média, a palavra soberania significa, antes de mais, superioridade e reenvia para o conceito de autoridade e hierarquia, mais do que para o exercício do poder.

O feudatário é soberano no próprio território mas depende do rei, assim como o rei é soberano na sua própria ordem, mas depende do Papa. Os juristas feudais do século XIII estabelecem, unanimamente, que só a jurisdição do rei é "plena" e se estende a todos os súbditos do seu reino: o vassalo não é obrigado a seguir o seu senhor feudal contra o soberano supremo.


Excertos do livro "A Soberania Necessária" - Roberto di Mattei

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Sacro Império Romano e a cristandade medieval

Um acto soberano inaugura a Idade Média e constitui o seu fundamento: a instituição do Sacro Império Romano, na basílica de S. Pedro, em Roma, durante a noite de Natal do ano 800.

Carlos Magno foi coroado rei "rex francorum et lomgobardorum patricius romanus". Esta coroação de Carlos Magno é um acto público e simbólico de importância universal, destinado a exprimir, durante mais de um milénio, a concepção da soberania cristã.
Carlos Magno não inventou a concepção de que foi beneficiário. A sua doutrina da soberania é a que foi exposta pelos Apóstolos Pedro e Paulo nas suas cartas.

Jesus Cristo dispôs a coexistência de duas autoridades soberanas sobre a terra: um poder espiritual e um poder temporal. A cristandade é dirigida por dois governos : a auctoritas sacrata dos pontífices ou ecclesia, e a regalis potestas dos soberanos, ou Imperium. O Papa e o Imperador são os dois monarcas supremos dos dois governos. Ambos exercem uma plena potestas que deriva directa ou indirectamente de Deus.

Entre os dois governos não há separação, mas distinção e coordenação.
A cristandade é a projecção, no plano material, da grande sociedade sobrenatural que é o corpo mísitico de Cristo. Segundo Régine Pernoud, a cristandade pode definir-se como a "universalidade dos príncipes e dos povos cristãos obedecendo a uma mesma doutrina.


Excertos do livro " A Soberania Necessária" - Roberto di Mattei

terça-feira, 3 de julho de 2012

Soberania e Estado na Idade Média

A soberania, o Estado e também a pátria e a nação não aparecem apenas no século XVI como tem sido dito. Desde a aurora da Idade Média, a civilização conheceu a soberania e o Estado.

Na concepção da Idade Média, tal como na antiguidade clássica em Aristóteles e Cícero, a sociedade é uma instituição natural, e o Estado, que é a sociedade politicamente organizada, é considerado como obra máxima à qual o homem se pode dedicar.

Na idade clássica, designava-se o Estado com o termo "Respública". Com as invasões bárbaras o termo desaparece sem ser substituído. Só no século XII, com o grande renascimento espiritual e intelectual, jurídico e político o pensamento medieval reencontra a noção de Estado (populus, corona, regnum). A noção de Estado existe de muito antes de 1500.

O conceito de soberania, tal como foi demonstrado por Marcel David, especialista de história do direito, não somente está presente na Idade Média mas possui uma riqueza de significado muito maior do que na época moderna.

No vocabulário medieval, até ao século XV, duas palavras, "auctoritas" (autoridade suprema) e "potestas" (poder público) são os dois elementos constituintes da soberania.


Excertos do livro "A Soberania Necessária" - Roberto di Mattei

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A soberania necessária

«A história corrobora a necessidade da soberania do Estado. 
A sociedade e a soberania - escreve Joseph de Maistre - nasceram juntas, é impossível separar estas duas ideias. (...) O Magistério da Igreja Católica afirma que a necessidade da soberania foi estabelecida por Deus e define o Estado como uma sociedade "necessária" e "perfeita" desejada pelo próprio criador. (...) O Estado - ensina Pio XII - é de origem natural, tal como a família; isto significa que no seu núcleo é uma instituição desejada e concedida pelo criador. O mesmo se pode dizer dos seus elementos essenciais, tais como o poder e a autoridade que promanam da natureza e de Deus. 

A soberania do estado é pois, necessária para o bem comum espiritual e temporal dos homens, e não pode ser eliminada da sociedade. 
O conceito de estado, ao qual se liga o de soberania, não se deve confundir com outros conceitos afins, como "pátria" e "nação". Na linguagem comum, estes termos podem confundir-se e coincidir, mas em filosofia política e em doutrina social exige-se maior rigor.
O Estado, segundo a definição clássica, é uma sociedade completa e perfeita, composta por uma multidão de famílias e de grupos intermédios, devotado à realização do bem comum. Neste sentido, o Estado é a unidade orgânica e representativa de um povo.
A nação precede o estado, geneticamente, mas em teoria: o Estado é um grupo social mais perfeito que a nação, por causa da sua razão e da finalidade a que se propõe.»


Excertos do livro "A Soberania Necessária" - Roberto de Mattei